terça-feira, 4 de janeiro de 2022

103 - A ARTE

 

(Remedios Varo)


Os iluministas chegaram à conclusão de que a arte reflete a natureza. Sobre isso, muito já se falou. Contra ou a favor. Aprendi e ensinei sempre que, ao elaborar uma ficção (e, por extensão, qualquer outra forma de arte), construímos um mundo suprarreal, paralelo à realidade, com leis próprias e coerência interna. Esse mundo suprarreal é um espelho do mundo real, um espelho liso e claro ou rugoso e fosco ou, ainda, deformado por convexidades e concavidades ou por multiplicidade de faces, mas sempre um reflexo através do qual iniciamos a nossa busca pela identidade humana. Nele refletimos o que sabemos do ser humano, o que gostaríamos que ele fosse ou criticamos aquilo que vemos nele. Ou, até, mesmo, descobrimos ou tentamos descobrir o que o ser humano é. Nesse mundo, podemos tudo. Só não podemos contrariar suas leis internas de coerência e coesão. A arte, pois, reflete a natureza, sob uma óptica muito especial do artista, contemplando e buscando regiões obscuras ou pouco conhecidas do humano. O artista torna-se, assim, criador e demiurgo de sua criação. Mesmo que, às vezes, não tenha plena consciência disso.

sábado, 1 de janeiro de 2022

102 - EXISTO, LOGO PENSO


(Edvard Munch (1863-1944), Friedrich Nietzsche - 1906).


“Penso, logo existo”. A essa máxima, chegou Descartes por caminhos tortuosos. Ficou. Não há como refutá-la usando o mesmo raciocínio, apesar de eivada de metafísica. Mas a existência humana não está condicionada ao pensamento. Aliás, não existe o pensamento como entidade abstrata, como dádiva ou dom da natureza. O cartesianismo obscurece. Talvez devêssemos plagiá-lo e dizer: existo, logo penso. A existência precede o pensamento e não o contrário. O ser humano criado pela divindade sente inevitável vontade de se considerar o rei da criação. Por isso, pensa para existir. A arrogância humana só é comparável à arrogância de seus deuses. Uma é reflexo da outra, não importa a ordem. O pensamento é fruto de ligações químicas e elétricas processadas dentro de um organismo vivo, o mais perfeito da natureza, o cérebro. Isso, sim, é incontestável, dentro dos conhecimentos científicos até agora alcançados. Se o cérebro humano processa a linguagem, é porque desenvolveu áreas específicas para isso. Com a linguagem, o cérebro humano se aperfeiçoou, num processo de troca entre a possibilidade de falar e a possibilidade de processar o que se fala. A capacidade de falar desenvolveu ao infinito a capacidade de imaginar. Nada ou muito pouco sabemos sobre o funcionamento das sinapses cerebrais dos animais ditos irracionais. Aliás, também muito pouco ou quase nada sabemos do funcionamento de nosso cérebro. Só o que podemos deduzir, com muita possibilidade de acerto, é que eles, os animais ditos irracionais, também pensam, raciocinam e deduzem. E possivelmente, também imaginam. Mas só o ser humano levou ao limite a capacidade de transmitir através da linguagem o que se passa em seu pensamento. Aves que falam, como o papagaio, têm limitada capacidade de construir novas frases com o vocabulário que adquirem porque ficam restritas à narração do mundo exterior, não conseguem articular frases que nos permitam chegar ao seu pensamento. Já os humanos exteriorizam o que ocorre em seu processo mental, o que lhes permite uma gama infinita de novas relações, lógicas ou não. Pensar é um exercício químico ou, no mínimo, um esforço das nossas sinapses cerebrais. Não pensamos para existir. Existimos para pensar e sonhar e imaginar e construir novos pensamentos que nos permitem entender melhor a nós mesmos e ao mundo em que vivemos. Embora ainda estejamos mergulhados na metafísica inútil de sábios que levaram ao limite a sua imaginação e têm, com isso, influenciado negativamente a humanidade, contribuindo para a perpetuação de superstições e irrealidades construídas sobre uma base metafísica de que a natureza e os objetos naturais têm uma “alma” ou uma “essência”. Na busca desta essência, temos perdido tempo precioso para a construção de uma verdade filosófica natural e materialista, libertadora das trevas do deísmo em que está mergulhada a humanidade, apesar de todos os avanços científicos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

101 - CONHECIMENTO E TECNOLOGIA

 

(Oscar Bluemner - moinho e riacho ou sol de inverno, 1925)


Muitas civilizações, como a dos gregos, dos romanos, dos maias e de inúmeros outros povos em todo o planeta, já pagaram muito caro, com sua decadência social, econômica, militar e política, por não respeitarem a natureza. Felizmente, esses povos ainda não haviam conquistado tecnologia suficiente para que a destruição fosse total. Isso só aconteceu nos dois últimos séculos, o que torna a vida no planeta Terra extremamente frágil. Como seres que pensam, sonham e constroem, os humanos deviam conquistar primeiro o conhecimento e depois a tecnologia. No entanto, como não há um plano pré-estabelecido de evolução e tudo acontece mais ou menos ao mesmo tempo, de forma aleatória, poucos foram os que adquiriram conhecimento e tecnologia e muitos os que detêm apenas a tecnologia. Com o conhecimento, somos capazes de observar a natureza e respeitá-la. Com a tecnologia, somos capazes de explorar essa natureza. Com conhecimento e tecnologia, respeitamos a natureza e exploramos suas potencialidades sem depredá-la. Mas só com a tecnologia, destruímos a casa em que moramos, comprometendo o nosso futuro. Os faraós, com a força de uma religião equivocada, ao obrigarem os egípcios a lhes construírem pirâmides para sua sobrevivência após a morte drenaram as forças da nação e isso pode ter contribuído para leva-los à derrocada. Os maias comprometeram definitivamente sua civilização, quando não respeitaram as florestas e as sufocaram e as sugaram com suas cidades voltadas para divindades alucinadas e predatórias. O homem ocidental moderno tem menos compromissos com as divindades loucas e sugadoras das forças de um povo, mas ainda assim tem arraigada em sua mente a noção absurda de sobrevivência num outro mundo, o que o torna arrogante e ignorante. Arrogante a ponto de, com a bênção de deus ou de deuses, erigir templos absurdos à tecnologia, esquecendo-se de que essa mesma tecnologia lhe possibilita conhecimentos fantásticos quanto às consequências de suas ações. Ignorante, por não saber como usar de forma racional e verdadeiramente ecológica todo o conhecimento acumulado desde o início da civilização e todo o conhecimento que a tecnologia lhe traz da observação de mundos distantes e, até mesmo, da prospecção do futuro. A ideia de deus, esse vício de que o homem precisa se livrar para conquistar definitivamente a liberdade de pensamento, constitui, ao fim e ao cabo, um empecilho para o próprio desenvolvimento humano. A humanidade tem de parar de pensar em deus e inventar divindades, para pensar melhor em si mesma. E poder sobreviver.

domingo, 26 de dezembro de 2021

100 - DEUS É UM VÍCIO NA CABEÇA DO SER HUMANO

 

(Escultura de Maya Lin - a mesa de Einstein)

Esquecemos, com o tal “milagre da criação divina”, que há um outro “milagre”, muito mais extraordinário que a criação: a longa e lenta evolução das forças da natureza, a construir de forma aleatória e através de experiências fantásticas uma trajetória que parte de um organismo unicelular (por sua vez fruto de forças evolutivas tremendas) para a construção de um animal que pensa, fala, sonha e se insere de forma às vezes atabalhoada num mais do que rico sistema vital, onde todas as forças da natureza se relacionam e dependem umas das outras. Não há desdouro em aceitar o nosso passado animal, porque não somos, dentro do raciocínio evolucionista, o último elo dessa corrente e também porque não sabemos o que seremos daqui a milhões de anos. Um milênio é como um segundo no grande painel do tempo que se conta em números tão fantásticos que nosso cérebro ainda tem dificuldades de compreender. O ser humano, com todo o seu potencial, com toda a sua inteligência, adquirida num lento processo que não ainda não terminou, é um ser imperfeito. A natureza tem feito inúmeras tentativas de aperfeiçoamento da nossa principal máquina, o cérebro, e por isso coexistem em todas as civilizações tanto os gênios quanto os imbecis. Também não há desdouro em reconhecer a existência dos imbecis, dos seres que, embora humanos, nasceram com muito poucos dotes de inteligência, ou ainda, aqueles que, embora com uma grande capacidade cerebral, apresentam falhas terríveis de caráter e pendem para o lado mais negro da humanidade, como certos líderes cujos nomes nem vou lembrar, para não cometer a injustiça de omitir vários outros nomes de tantos monstros que assombram a história humana. Não há preconceito ou rancor em aceitar a existência de seres extraordinários, tanto numa ponta quanto na outra. Os pouco dotados, os que chamei acima de imbecis (sem nenhuma conotação pejorativa, mas por falta de palavra mais apropriada), devem merecer nosso respeito, como resultado de combinações genéticas que ainda não controlamos nem sabemos se um dia controlaremos. Quanto aos que causam desgraças terríveis à humanidade, os loucos e megalomaníacos, assassinos e tarados em geral, são também fruto desses mesmos genes e a humanidade terá de aprender a se defender de seus atos. Não são, nem os gênios nem os loucos nem os “santos” nem os “demônios”, frutos da mente inescrutável de uma divindade, mas seres humanos, demasiado humanos, para recuperar o título de um livro de Nietzsche. Não é à toa que o deus que esses humanos criaram, à força de nele pensar, é um deus que tem, elevadas a várias potências, as mesmas qualidades humanas e mais algumas que consideramos supra-humanas. Um deus que é um vício na cabeça do homem. Quando nos livramos dele, a sensação é a mesma de um viciado que se livrou do fumo ou do ópio ou de qualquer outra droga: alívio e liberdade. Alívio por não se precisar mais prestar contas de nossas vidas, de nossos atos, a essa divindade terrível que tudo vê e que está pronto a nos punir com a perdição eterna. Liberdade para poder enxergar a vida e a natureza com olhos de compreensão e de humildade diante de sua capacidade de nos surpreender. Liberdade, principalmente, para traçar um destino mais sensato para a humanidade, sem as armadilhas das superstições que nos levam a crer em sobrevivência de uma alma que não necessita de corpo físico e, portanto, da natureza, para existir. Quando o ser humano se sobrepõe à natureza, ele se condena ao desaparecimento.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

099 - O VÍCIO DE PENSAR EM DEUS

(Henry Woods)


Perdida entre as páginas de algum livro antigo de minha biblioteca, lembro claramente, está uma folha de revista, amarelecida pelo tempo, provavelmente de 1960, quando ainda era muito jovem, em que há uma citação de um autor cujo nome será demais recordar agora, mas sua máxima me acompanhou a vida toda e está clara em minha mente: “Se Deus não existisse, os homens já O haveriam de ter criado, à força de pensar Nele”. Assim mesmo, com todas as maiúsculas de respeito. Passados tantos anos, essa frase, que me soava enigmática, tem, agora, um sentido bastante interessante. A ideia de deus ou de uma divindade acompanha o homem há tanto tempo, que o cérebro humano já se acostumou a pensar na sua existência, imposta desde os primeiros vagidos da criança, talvez, mesmo, desde a concepção, transmitida geneticamente, de geração a geração, e durante toda a vida intrauterina. Há um vício, portanto. Um pensamento que parece grudado à mente dos humanos, ou da maioria dos humanos. Como o vício do fumo. O organismo se acostuma ao tabaco e, depois, abandonar esse vício torna-se extremamente penoso. A única diferença é que o vício do fumo é um vício adquirido, enquanto o vício de pensar numa divindade é imposto como um dogma absoluto na mente humana, trabalhado através da repetição constante, a começar, por exemplo, no cristianismo, com o sacramento do batismo e, depois, com a educação da criança, estendendo-se, num cerco que beira a lavagem cerebral, a toda a sua vida. Em qualquer circunstância, em todos os momentos, não há quem não repita frases feitas de conteúdo deísta, como um “deus me livre” ou “deus te ajude” ou “vá com deus”. São inúmeras as vezes, durante apenas um dia de nossas vidas, que ouvimos, e às vezes até citamos, aforismos ligados à divindade, aparentemente repetidos de forma inocente e alheia à nossa vontade. São expressões que, de forma inconsciente, reforçam a ideia de deus em nossa cabeça: à força de pensar em deus, acabamos criando a criatura que achamos que nos criou. Como um vício. Um vício que não nos permite contemplar de forma isenta o mundo que nos cerca. Um vício que oblitera a nossa mente para outras possibilidades, muito mais humanas, de nos relacionar com as forças naturais a que estamos submetidos como seres que nascem, vivem e morrem como todos os demais seres vivos. Creio que podemos denominar esse vício de o mais poderoso meme já inventado pela imaginação do ser humano, algo quase impossível de erradicar de nossas mentes. Mas, tenha certeza de uma coisa, ó ser humano deísta que me lê, se você conseguir se livrar desse meme, desse vício, você se tornará, em sua mente, um ser absolutamente livre. E essa sensação de liberdade, pode ter certeza, é uma das maiores conquistas que um ser humano pode alcançar em termos de filosofia, de visão de mundo, de viver intensamente a vida de forma ética e comprometida com a própria vida e tudo quanto a ela está ligado: a natureza e o mundo em que vivemos, o nosso próprio corpo, ou seja a vida única e possível que temos. Portanto, cuidar de tudo isso é a primazia ética da liberdade de não ter que pensar em deus.



segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

098 - O TEATRO DOS METAFÍSICOS

 

(Edvard Munch - the hands)


Na mente dos metafísicos está escrita a sua maldição: é preciso, sempre, complicar, para explicar. E não adianta mostrar, provar ou dizer que nunca, em nenhum lugar do mundo, em qualquer circunstância, algum mortal tenha visto, percebido ou tocado a essência de qualquer coisa. Nenhum laboratório, até hoje, nenhum telescópio, nenhum detector controlado pela ciência, conseguiram, até hoje, encontrar sequer algum vestígio da essência da matéria, a não-matéria, a alma ou espírito, como querem fazer crer os truques de prestidigitação a que se dedicam os chamados espiritualistas. Nenhum homem retornou do sono da morte, como escreveu Shakespeare, para, logo em seguida, fazer Hamlet conversar com o fantasma de seu pai. Porque, acima da contradição, o genial dramaturgo prezava a construção poética do drama, o teatro em sua forma ideal. A diferença é que Shakespeare utiliza o paradoxo no palco. Os espiritualistas, os metafísicos, os lógicos de plantão pretendem que o palco substitua a própria vida e são audazes nisso: constroem templos, organizam festas e cerimônias, entoam cânticos, celebram eventos nunca ocorridos, inventam outros que jamais poderiam ocorrer e, assim, montam seu espetáculo teatral sobre a própria vida, acima da natureza, ocultando do espectador iludido com suas pompas a verdadeira natureza que permanece ali, atrás de toda aquela encenação, pronta a ser vista por quem tenha olhos de ver e de entender, sem dogmas, sem sectarismos, nua e crua em si mesma, sem nenhuma “essência” oculta.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

097 - DISCURSOS METAFÍSICOS SÃO PIRÂMIDES: BELOS E INÚTEIS

 

(Yves Tanguy)


A metafísica é antinatural e, por isso, criou produtos antinaturais, absurdos, embora atraentes e belos. São como as catedrais e as pirâmides, os discursos metafísicos: não servem para nada, a não ser para criar ilusões, sobre as quais navega a mente da maioria dos seres humanos. A ilusão da vida, essa a finalidade precípua da metafísica. Os metafísicos odeiam a vida verdadeira, que não tem essência, não tem dificuldades e complexidades além das que a própria vida oferece, em seu existir e em suas leis. Para a metafísica, é necessário, primeiro, negar a vida, depois, reconstruí-la na mente das pessoas como uma pirâmide de cristal, embalada numa lógica interna e perversa, elaborada para criar ilusões. E então, os cristos ressuscitam, os mortos falam, o inferno e o céu se povoam, as hagiografias se compõem, os milagres se realizam. E os cofres das igrejas se enchem do ouro dos tolos, aquele mesmo que não tem valor algum. Porque o mundo de ilusão está criado, estabelecido e estratificado nas mentes que não ousam olhar para fora, para a vida, para a natureza e observar sem sectarismos como essa vida e essa natureza realmente se comportam, muito distantes das metafísicas inúteis e enganadoras. Então, ao discurso cético só resta o caminho do testemunho, da análise serena e objetiva do mundo e da transformação dessa análise em filosofia do cotidiano, o que, às vezes ou quase sempre, parece pobre para as mentes “esclarecidas” dos metafísicos, sempre preocupados em buscar de cada objeto a sua “essência”, esquecidos, em suas elucubrações imbecis, de que a natureza é apenas aquilo que ela é, sem nenhuma “essência” espiritual além da matéria atômica de que é composta.

187 - PALAVRA FINAL: O ALÉM DO HOMEM

  (Vincent van Gogh) Tenho plena consciência de que tudo quanto eu escrevi até agora constitui um rio caudaloso, uma pororoca, sobre a qual ...