terça-feira, 14 de dezembro de 2021

096 - O DESAFIO DO DISCURSO CÉTICO

 

(Suzanna Schlemm)

O discurso cético. Esse o desafio. Criar crenças absurdas e superstições metafísicas é muito fácil. E, a partir dessas invenções, construir um sistema teosófico ou inventar teogonias é um pulo bastante simples, basta um pouco de imaginação. E torna-se fácil, com o discurso metafísico, impressionar as mentes mais frágeis, para transformar em verdades as suas absurdas interpretações do mundo. Basta usar a lógica, a estupenda lógica dos socráticos, dos platônicos. E o mundo se ordena maravilhosamente na especulação de belos edifícios filosóficos. Tudo se explica. Tudo se encaixa. Na mentira mais deslavada. Na enganação espúria das pessoas que preferem acreditar em religiões, em superstições, em magias, do que simplesmente olhar ao redor de si e contemplar o movimento da natureza. Não há mistério, não há magia maior do que a própria vida a se desvelar ante os olhos de quem olha sem preguiça mental para os eventos que a natureza nos oferece. O vento é apenas o vento. Não traz em si nenhuma conotação espiritual de vingança nem age a mando de deuses estúpidos. A fera é apenas a fera. Defende sua prole e seu território com as forças que a natureza lhe deu. Não tem intenção de matar para cumprir qualquer tipo de desígnio superior ou inferior. Não há demônios na natureza. Nem santos, nem anjos, nem deuses. Não há entidades abstratas. Há apenas as leis simples e precisas que conhecemos e não aprendemos a reconhecer como o motor da vida. As abstrações foram plantadas na mente humana, por obra e graça dos metafísicos. E não adianta fornecer àquele que crê em superstições um discurso objetivo e sem dogmas, porque a crença obscurece todos os sentidos e impede que o crente enxergue, ouça e perceba (pelo tato ou pelo gosto ou pelo olfato). Seus sentidos ficam embotados. Aliás, não há discurso filosófico sem dogmas. Por isso, não há filosofia no ceticismo. Há apenas o discurso que apresenta uma visão de mundo, uma experiência, que cada um que o ler deve aproveitar ou não sua lição. Não há possibilidade lógica no ceticismo, porque a lógica é a mãe de todos os fundamentalismos baseados na metafísica. Também não há apenas o experimentalismo que coloca o pensamento subordinado aos eventos. O pensamento cético caminha lado a lado com a experiência, transforma a experiência em ideias e ideias em experiências. E constrói o edifício da sua visão de mundo, especial e diferente em todos os sentidos do discurso lógico e filosófico. É um discurso voltado para o outro, para a natureza e para si mesmo como agente e paciente da ação da vida que transcorre, esta sim, com a simplicidade de suas lógicas e de seus meandros.

sábado, 11 de dezembro de 2021

095 - TECNOLOGIA E CONSUMISMO

 

(Anish Kapoor - Dismemberment)



Por paradoxal que possa parecer, somente a tecnologia pode nos salvar. Desde que usada com conhecimento. Porque é isto o que acontece: temos tecnologia e sabemos disseminá-la, mas não sabemos fazê-la acompanhar-se daquilo que lhe deu origem – o conhecimento. O ser humano é um animal hábil. Só isso. Não é, em essência, um animal sábio. Se fosse sábio, não se condenaria à extinção, ao usar a tecnologia apenas para destruir a casa onde mora. Assim, só o conhecimento, a sabedoria, poderá tirar a humanidade da enrascada em que se meteu. No entanto, conhecimento não é algo que se distribui facilmente. Como convencer o pobre diabo faminto de que não deve pescar durante certas épocas do ano? Como convencer o sem-teto a não invadir a área de manancial, porque estará degradando as fontes e destruindo o futuro? Não há futuro para quem tem fome. O imediatismo da miséria conspurca qualquer possibilidade de futuro. Então, o conhecimento, a sabedoria, deve ser usado, primeiro, para resolver questões econômicas de curto prazo. Vencer a miséria torna-se uma das metas a ser cumprida, para reverter a degradação de nosso planeta. Mas há a outra ponta da encrenca: o consumismo. Também é preciso convencer milhões a consumirem só o indispensável, a cortar o supérfluo, a desperdiçar menos e olhar mais para o futuro. Outra tarefa tão difícil quanto combater a miséria. Então, temos dois lados de uma mesma moeda, com o capitalismo selvagem fazendo a liga entre o mundo consumista e o mundo miserável, constituindo ambos o cerne de um dos problemas mais complexos da humanidade, a preservação de sua existência, a construção de seu futuro. Para combater a miséria, temos o conhecimento e nos falta vontade política, pois implica buscar soluções como distribuição de renda, criação de empregos, controle da natalidade, combate às doenças etc. Para combater o consumismo, não temos nenhuma tecnologia, a não ser o uso da razão, do convencimento simplesmente, mas diante das pressões econômicas dos capitalistas, isso se torna uma tarefa tão inútil quanto enxugar gelo. Ficamos, então, num beco quase sem saída. O grito dos ecologistas e o desespero dos cientistas a alertar para o desastre iminente precisam ganhar as manchetes dos meios de comunicação. A sirene do alarme deve ter seu ruído aumentado ao infinito, para que o mundo desperte da letargia do consumo desmesurado e busque o equilíbrio entre ser humano e natureza, para interromper o processo acelerado de destruição que a tecnologia possibilitou. Nunca se destruiu tanto em tão pouco tempo, com tão poucos recursos. Esse o preço que estamos pagando por uma tecnologia barateada pelo consumismo, usada sem o devido conhecimento, sem a devida sabedoria. Até quando vamos elevar a base e a atura dessa pirâmide chamada consumismo? Só uma grande catástrofe, talvez, possa acordar o homem. Infelizmente. E essa catástrofe está logo ali, a poucos anos a nossa frente, a nos espreitar com seus olhos silentes e sombrios. Só nos resta torcer para que, num determinado momento, os que têm sensibilidade para perceber o que está acontecendo possam ser ouvidos e, então, os povos comecem a cobrar de seus dirigentes a responsabilidade pelo equilíbrio do grande ecossistema em que vivemos. E tomem as providências necessárias, antes da grande catástrofe ecológica que nos espera. É preciso que paremos de queimar a vela da vida pelas duas pontas.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

094 - A GRANDE PIRÂMIDE DO CONSUMISMO

 

(Dinho Bento - o animal consumista)

A civilização egípcia construiu pirâmides para seus faraós. Monumentos imensos e perfeitos, que necessitaram de recursos formidáveis, para o nada, para a morte, para o engrandecimento de uma casta mínima de dirigentes. O culto à morte condenou todo um povo, toda uma civilização, ao desaparecimento, pelo esgotamento de suas reservas na construção de monumentos inúteis. As pirâmides, por mais fantásticas que as consideremos, são as obras mais fúteis já construídas pelo engenho humano. Não serviram para nada e não servem, hoje, para nada, a não ser para atrair turistas com suas máquinas fotográficas de último tipo e manter uma indústria mais ou menos próspera de antiguidades. Ao longo da história, o ser humano construiu e continua construindo pirâmides, adaptadas à ideologia e ao deus de cada época, chamadas ali de catedrais, mais adiante de palácios, mas todos esses monumentos maravilhosos, de pedra e materiais nobres, desafiadores da capacidade humana de criar coisas belas, todos eles monumentos à inutilidade. A grande pirâmide dos nossos tempos – iniciada a sua construção a partir da revolução industrial – não tem paredes de pedra, não tem existência visível, mas demonstra muito mais capacidade de esgotamento das reservas do planeta do que qualquer outro monumento já erguido pela humanidade em todos os tempos. Denomina-se consumismo. Chamo-a de catedral da absorção. Tem a boca de milhões de demônios famintos e os olhos de milhões de voçorocas a devorar as riquezas da terra, simplesmente pelo prazer de possuir seus tesouros, transformados em tantos bens inúteis, em tantas tralhas sem finalidade, em tantas geringonças a atravancar os lixões, que não somos mais capazes de controlar sua produção em série. Escravos dos subempregos que gera, abrutalhados pelo círculo vicioso do produto que gera uma necessidade que gera um produto, não percebemos, escondidos atrás das fumaças das fábricas, que estamos comendo por dentro o nosso planeta, vorazes bichos da fruta a matar a mãe que nos alimenta. Usamos e desperdiçamos recursos preciosos sem nos dar conta de que essa pirâmide infernal cresce a cada dia e esgota nossa capacidade de construir e preservar, esquecidos de que a Terra não é fonte perene de energia, de vida, de recursos. Não aprendemos com os povos que desapareceram que não podemos usar sem repor os recursos que parecem, à primeira vista, abundantes. Degradamos num simples piscar de olhos ecossistemas que levaram séculos para se desenvolver. Transformamos montanhas em lixo em poucos anos. Trituramos florestas imensas em poucos meses de exploração predatória. E com todos esses e outros recursos, queimamos vida, vida que não se repõe ou, se o faz, levará séculos ou milênios, quando, talvez, já não haja mais tempo para a humanidade. Tudo isso é fruto da estupidez humana. Ou, pelo menos, da maioria absoluta da humanidade. Não há racionalismo nenhum nessa autofagia desenfreada em que se meteu a humanidade, desde a sua existência, exacerbada agora pela tecnologia.

domingo, 5 de dezembro de 2021

093 - BARBÁRIE ECOLÓGIA

 

(Wols - Alfred Otto Wolfang Schulze - 1937-50)

Dominar a Terra. Ser o seu dono absoluto e sobreviver. Missão da humanidade. Não da humanidade atual, mas de um ser humano mais inteligente. O que vemos hoje constitui um estado de barbárie. Há cérebros extremamente lúcidos quanto aos problemas ambientais, trabalhando para que se ultrapasse esse estado de barbárie. Mas são minoria. Os interesses políticos e econômicos falam mais alto. E a estupidez da maioria faz o resto. Não há justificativa, além da estupidez, para a degradação do ambiente. Estamos, literalmente, cuspindo no prato em que comemos. Na verdade, cagando. Porque a sujeira dos rios, por exemplo, com dejetos humanos e industriais, só pode ser coisa de gente muito estúpida. A água, causa e consequência da existência de vida, torna-se, a cada dia, mais rara no planeta. A água potável transformar-se-á, se providências urgentes não forem tomadas, em verdadeiro pesadelo para a existência dos seres humanos neste planeta. Regiões de mananciais são tomadas pela especulação imobiliária, fruto da ganância, inviabilizando a captação de água para milhões de pessoas, sem que ninguém tome providências. Justifica-se a inoperância com o problema social, pois são, em geral, pessoas de baixa renda os invasores dessas regiões, incentivados pelo imediatismo de grileiros acobertados por interesses políticos. No entanto, coloca-se em risco a sobrevivência e o futuro de uma cidade como São Paulo, de dez milhões de habitantes, por causa de cinco ou dez mil invasores, que deviam ser retirados, nem que fosse a poder de polícia, para regiões onde não pudessem comprometer a própria vida e a de seus descendentes. Está-se dando um tiro no pé da civilização. Pobreza não pode justificar a burrice. E a burrice, nesse caso, não é dos pobres, mas daqueles que se aproveitam deles para tirar vantagens eleitoreiras. E não é só a degradação de rios e represas por esgoto humano e industrial que preocupa. Há também a terrível poluição provocada por mercúrio e outros produtos tóxicos provindos da atividade mineradora, da exploração descontrolada de rios importantes em busca de metais e pedras preciosas, também aí uma exploração resultante da ganância e da estupidez humana. A indústria de joias, essa fonte de vaidade estúpida, que cria maravilhas de arte e beleza infernais, para enfeitar o corpo de homens e mulheres, contribui decisivamente para a degradação do planeta, num canto de sereia que pode custar muito caro ao ser humano do futuro. Também o uso indiscriminado de agrotóxicos nas lavouras, além de levar veneno para a mesa das pessoas, polui a terra e as águas, contaminando os rios e os aquíferos, matando a fauna e a flora, inviabilizando o uso da água subterrânea ao torná-la imprópria para uso humano. Também os mares e oceanos não escapam da fúria destruidora do ser humano, porque além de despejar nas águas marítimas a sujeira que vem dos rios e dos esgotos, acidentes com grandes petroleiros e perfurações em águas profundas sujeitas a vazamentos que despejam no mar milhões de litros de óleo ocasionam danos quase permanentes à fauna e à flora, sem que os governos tomem providências enérgicas contra as grandes companhias petrolíferas, que mandam e desmandam no mundo, refém de seu poderio econômico. E a poluição das águas é só um dos grandes problemas de degradação ambiental a que assistimos nesse início de milênio. Há outros, tão ou mais graves, como o desmatamento incontrolável das florestas em todo o globo, sob a responsabilidade de madeireiras que só visam ao lucro imediato, sob os olhos complacentes e, às vezes, até mesmo a contribuição de governos, polícia e judiciário corruptos; a poluição do ar com componentes cada vez mais tóxicos provenientes das grandes indústrias do mundo inteiro, principalmente dos países mais desenvolvidos, que despejam milhões de metros cúbicos de poluentes na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global, cujas consequências catastróficas podem se tornar apocalípticas para a humanidade; a pesca predatória, sem nenhuma preocupação com o ritmo da natureza, feita por grandes companhias donas de imensos navios pesqueiros que utilizam técnicas que não só capturam as espécies que lhes interessam mas também arrasam com toda a fauna marinha em quilômetros, sabendo que podem circular livremente por todos os oceanos, sem serem perturbados, porque confiam no seu poder para corromper e tornar reféns desse poder nações inteiras; a exploração sem controle das reservas naturais de petróleo e outras riquezas, esgotando em poucos anos o que deveria constituir em patrimônio da humanidade, sem investir em busca de energias alternativas que possam impedir uma catástrofe mais do que anunciada. Enfim, a humanidade torna-se cada dia mais refém de sua própria estupidez. Estupidez alimentada pela ganância do lucro imediato, pela especulação em torno da vida, sem pensar que o ganho de hoje pode ser a tragédia do futuro. A isso eu chamo barbárie, uma das tantas que acomete a humanidade, que é capaz de criar tecnologias fantásticas e não é capaz de pensar com o cérebro privilegiado que tem uma solução imediata que torne viável a vida humana de um futuro não muito distante, porque, diante do grau de avanço cada vez mais rápido da degradação, não haverá mais vida neste planeta dentro de cinco ou seis séculos, ou seja, a humanidade não comemorará o quarto milênio.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

092 - O FUTURO COMEÇA AGORA

(Zdzisław Beksiński)

O desaparecimento de um planeta como o nosso, na ordem universal, não passaria de um acontecimento extremamente inexpressivo. Somente nós, que somos parte desse planeta, na nossa pequenez, é que nos achamos importantes. Se pudéssemos juntar toda a areia que há em nosso planeta numa só praia, a Terra seria menos que um minúsculo grão. Praticamente nada sabemos do Universo que nos cerca. E, possivelmente, nunca saberemos. Pensar sobre isso pode conter uma dose de pessimismo que muitos não devem tolerar, mas é a única forma de nos colocar frente ao problema de nosso próprio destino. Temos a capacidade de escolher o caminho. Isso é fato. Não é fato que façamos a escolha correta. Por isso, é preciso levantar vozes de alerta contra a destruição do ambiente em que vivemos, contra a corrida armamentista, contra o desenvolvimento brutal da capacidade de destruição que a humanidade vem acumulando. O pacifismo e os movimentos ecológicos não são criação da mente de poetas e sonhadores, de utópicos e covardes que, simplesmente não gostam de armas ou de guerras, ou que não desejam a exploração das riquezas da Terra, mas constituem, mesmo em suas formas mais exageradas de manifestação, um alerta precioso quanto ao mundo que queremos deixar para as gerações futuras, ou, até mesmo, se vamos deixar alguma coisa para as gerações futuras. E o futuro não se planta no futuro, tem que começar já, agora, no preciso momento em que estamos. Ações globais e planos nacionais de combate à poluição e à degradação do ambiente devem ser adotados por cada um dos indivíduos conscientes desse planeta. Caso contrário, não saberemos nunca o caminho da evolução da mente primitiva do ser humano, não teremos, na realidade, saído das cavernas, apenas construímos cavernas tecnologicamente mais avançadas, com luz elétrica, água corrente e ar condicionado. Mas cavernas, apenas cavernas.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

091 - O CÉREBRO HUMANO

 

(Ney Sayão - Medusa)

Falamos, às vezes, da mente primitiva do homem das cavernas, por exemplo. Por falta de melhor palavra, até aceito o adjetivo. No entanto, não nos esqueçamos de que a nossa mente também ainda é muito primitiva. Ou seja, a evolução não dá saltos. Não tem pressa. Não acontece de uma hora para outra. Entre nós e nossos antepassados, o tempo é muito pequeno, em termos cosmológicos. Estamos ainda engatinhando, no processo evolutivo natural. Somos bebês a ensaiar os primeiros passos. Nosso cérebro – como já disse algures, uma fantástica usina – ainda deve ter muito a evoluir, ou seja, a modificar-se, a transformar-se, principalmente quando sabemos que, conscientemente, só usamos uma pequena parcela dessa usina para criar todo um complexo civilizacional sem precedentes até agora. Mas as diferenças entre os cérebros, no ser humano hodierno, embora sejam um assunto tabu, ainda constituem um mistério da natureza. Enquanto há cientistas cujos cérebros têm a capacidade de imaginar, criar e projetar máquinas fantásticas, como naves especiais comandadas por sofisticados computadores, ainda há milhões de seres humanos vivendo na mais sórdida ignorância de aspectos vitais, como a noção da própria existência independente de deuses. Mesmo os cérebros privilegiados para tarefas extremamente complexas manifestam total inadaptabilidade a aspectos comezinhos da existência, como se houvesse um grau tão grande de especialização de uma área cerebral que não permitisse o desenvolvimento de outras sinapses senão aquelas para as quais a mente se especializou. Ou seja, há sábios idiotas. O problema é que não há idiotas sábios. Os poucos que assim poderiam ser denominados foram sempre indivíduos portadores de síndromes tão estranhas quanto desenvolver capacidades únicas e levar essa capacidade a um grau tão grande de especialização, que se comprometem todas as demais funções cerebrais ditas e aceitas como normais. Não tem nenhuma serventia prática a capacidade de um cérebro de fazer cálculos matemáticos sofisticados, por exemplo, e o homem portador desse cérebro possuir um alto grau de esquizofrenia que o impede da convivência com outros seres humanos. O estereótipo do cientista louco tem, como todo mito, alguma base de verdade. As inteligências diferenciadas, geralmente, têm falhas estruturais nos demais mecanismos cerebrais que os tornam inadaptados para outras funções. Assim, por serem indivíduos diferentes, os cientistas acabam sendo taxados de loucos. São compensações que a natureza faz, em suas experiências, dotando uma área cerebral de maior capacidade em detrimento de outras. São aspectos interessantes a serem compreendidos, futuramente. Aspectos que permitem que especulemos sobre os rumos da evolução, embora toda especulação nesse campo tenha altíssima possibilidade de erro. No entanto, se até agora algumas dessas experiências não têm dado muito certo, criando alguns dinossauros invertidos, isto é, indivíduos com altíssima capacidade cerebral e pouca adaptabilidade aos demais aspetos da vida prática, nada nos impede de pensar que, em algum momento da cadeia evolutiva, essas experiências comecem a encontrar um equilíbrio que permita desenvolver um novo tipo humano, dotado de capacidades cerebrais desenvolvidas de forma mais equilibrada, um homem mais inteligente e, ao mesmo tempo, sem as síndromes de inadaptação que muitos de nossos chamados gênios sofreram, ao longo da história. No entanto, são especulações que não podem ser confrontadas com a realidade, porque são modificações tão sutis, no longo rio da evolução, que não temos, ainda, como medir e avaliar o que realmente está acontecendo. Além disso, não há, verdadeiramente, em termos de evolução, um único rio que conduza a humanidade a um destino único, mas inúmeros rios que caminham para destinos diferentes, com diferentes tamanhos e com obstáculos também diversos, de tal modo que o ser humano, ao mesmo tempo, seja considerado uma espécie única, tem inúmeros afluentes e corredeiras e quedas. Muitos desses rios se transformam em riachos, em fios d’água, e desaparecem no meio do caminho, enquanto outros podem tomar rumos completamente inusitados. Porque a lei da natureza é experimentar sempre, ao acaso. Só os mais adaptados tendem a permanecer. Mas também aí só o acaso pode determinar que isso de fato aconteça. Uma espécie pode desaparecer em virtude de mudanças dramáticas do ambiente, ou por escolhas infelizes no caminho da vida. E o ser humano é uma espécie que tem alta capacidade de escolha. Se optar por um caminho errôneo, pode comprometer sua sobrevivência no universo.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

090 - OS CARBUNCOS


(Zdzisław Beksiński)


Pensar dialeticamente constitui uma interessante ferramenta para tentar entender a existência. Mas, pode também conduzir a armadilhas simples. Somos levados, por exemplo, a raciocinar que, se há uma “existência”, deve haver uma “não-existência”, ou seja, acabamos contrapondo o ser ao nada. Criamos, então, uma categoria, ou seja o que for, um ente, chamado nada. E o que é o nada? Debruçaram-se os filósofos sobre a questão, desafiaram-se em busca da explicação para o nada, à exaustão. Muitos neurônios queimados depois e alguns séculos de busca não redundaram em absolutamente nada. Ou seja, só existe o nada quando os filósofos discorrem sobre ele. É um ente inventado, que só existe na linguagem, na abstração da linguagem. Posso, com a linguagem, inventar o que eu quiser. Por exemplo, os carbuncos. São um povo originário do planeta Arguidelo, aqui trazidos por um desastre de sua nave espacial, que ia em direção a uma outra galáxia e sofreu uma pane, tendo a desgraça de cair justo no planeta Terra. Estabeleceram-se, há milhares de anos, na ilha de Chipangó, e ali permaneceram. São homúnculos de orelhas redondas, única característica que os distingue dos demais humanos, além da tendência à pouca altura, embora não sejam anões. Vivem da terra e seu principal alimento foi trazido de seu planeta de origem: é uma raiz muito saborosa e rica em nutrientes, chamada naiperê. Os carbuncos não são muito sociáveis e, por isso, permaneceram isolados até há pouco tempo. Com o contato com a civilização humana, estão-se descaracterizando e entraram em processo de extinção. Pronto: aí está um povo que pode interessar a muitos estudiosos. Pode-se objetar: mas o carbuncos não existem. Ora, claro que existem: acabei de inventá-los. Assim também o nada: existe a partir do momento em que o inventaram. E mais não digo sobre isso, porque muita tinta já se gastou para tentar chegar ao conceito do nada, para justificar a criação do mundo, a existência de deus (outro nada) e para justificar mil e uma bobagens da crença metafísica de que há um mundo das ideias, um mundo ideal, abstrato, que se contrapõe ao mundo físico. Como se, com o mundo físico, já não tivéssemos problemas demais para resolver, em todos os campos do conhecimento humano. Não conheço um único ser humano que se tenha beneficiado realmente com a propalada existência desse mundo ideal ou com a concepção filosófica do nada, a não ser os pobres filósofos da imponderabilidade, melífluos seres em permanente estado de flutuação mental pelas paisagens do mundo, ou seja, os metafísicos. E gostei tanto dessa última frase, que gostaria que ela fosse realmente a última desse parágrafo, mas acabei de estragar isso, ao fazer tal comentário.


187 - PALAVRA FINAL: O ALÉM DO HOMEM

  (Vincent van Gogh) Tenho plena consciência de que tudo quanto eu escrevi até agora constitui um rio caudaloso, uma pororoca, sobre a qual ...